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A Construção do Ser Mulher na Cultura Patriarcal

Por: Carolina Barreto Braga


Em um diálogo entre mulheres, chegamos à seguinte conclusão: “É mesmo muito difícil ser mulher nesse mundo”! E neste caso, a palavra difícil não pôde ser substituída por desafiador, como é comum fazer no exercício de esperançar, elas neste caso, se complementam. Mas qual o porquê disso?


Não é tão simples de explicar esse tal porquê, os dados estatísticos sobre feminicídio, violência doméstica (suas diferentes versões), desigualdade de gênero no mundo do trabalho, na responsabilidade com os filhos e tarefas domésticas e tantas outras pautas importantes, representam o efeito, o reflexo das dificuldades no “ser mulher” nesse mundo. Podemos chamar todas essas questões de “A ponta do iceberg”!


Durante o diálogo onde surge a constatação da imensa dificuldade de ser mulher, a pauta principal eram relacionamentos afetivos de mulheres com diferentes identidades sexuais e durante o diálogo ficou evidente que regras das relações eram alicerçadas por princípios machistas e patriarcais, mesmo quando as relações não envolviam pessoas do sexo masculino.


Antes de continuar, quero enfatizar que não se trata de responsabilização da mulher sobre as questões de gênero, quando me refiro à ausência de homens em relações machistas, mas de trazer ao topo a reflexão sobre as relações de gênero e as normativas constituídas pelo universo machista e seu poder.


Por isso, é bom pontuar que o patriarcado e a cultura machista representam estruturas de poder, que impõem sobretudo os lugares sociais e definições de gênero, introduzidas na socialização de todas as pessoas e exercidas pelas instituições sociais (família, estados, igreja, escola, etc) e por isso homens e mulheres exercem em sociedade suas normativas. Talvez por meio dessa compreensão consigamos chegar mais fundo nesse “iceberg”.


Para dar saúde a essa discussão o primeiro paradigma a ser rompido é o de que mulheres são compostas por certas características inatas e homens por outras e para realizar essa mudança é preciso entender que os gêneros foram “biologizados” pelos princípios do patriarcado e da cultura machista, apoiados nas ciências médicas, que hoje se mostram insustentáveis. Mulheres! Quantas vezes foram silenciadas pela exigência de uma objetividade, que seu interlocutor era incapaz de demonstrar? Quantas vezes perceberam que o discurso sobre o excesso de sua fala era uma maneira de te silenciar? Vocês já tiveram que acolher o gênero masculino no uso excessivo de suas emoções? Já foram gritadas por homens que não conseguiam conter suas emoções? Os exemplos que conseguirem identificar serão poucos para demonstrar que homens e mulheres podem falar demais, ser pouco objetivos e demasiadamente emocionais.


Uma vez desconstruindo a maneira estereotipada de enxergar os gêneros homem e mulher, passamos a compreender de maneira mais fluida que o masculino e feminino fazem parte de todas as pessoas e facilmente transitamos entre eles e até mesmo podemos reconhecer nosso corpo de forma não biológica, como mulher ou homem ou mesmo, de maneira não binária. Se essa reflexão complicou para você a essa altura, volte cinco casas e continue refletindo sobre como nos tornamos homens ou mulheres e quem nos ensina.


Voltando ao X da nossa questão sobre “ser mulher”, até aqui entendemos que: agimos de maneira constituída culturalmente e historicamente e que a base ideológica que nos move hoje ainda, de maneira hegemônica, é machista e patriarcal, que nos define conforme uma construção social, que requer de nós certos comportamentos, lugares e obrigações e até mesmo um certo corpo.


As ideias que definiram as mulheres na história da humanidade estão relacionadas principalmente ao controle dos nossos corpos, e mesmo que isso também ocorra com os homens, o feminino sempre esteve envolto em um véu que vai desde a santidade à obscenidade, servindo em seus lugares e papéis específicos e sendo extremamente necessário para a perpetuação do modelo patriarcal e cultura machista. Certas mulheres para casar, outras para o prazer, o feminino que salva e o feminino que destrói o homem. Nesse modelo de controle, os corpos das mulheres e o feminino sempre estiveram como um pêndulo cuja sua referência era a vontade e necessidade do homem.


Vale aqui pensar sobre o feminino e o masculino como atributos que foram construídos socialmente e tradicionalmente foram exclusivos do homem ou da mulher, sendo intransitáveis entre os gêneros: “Homem que chora é mulherzinha” e tantas outras expressões refletem essa construção. Os femininos adorados ou temidos tiveram seus papéis bem definidos na mãe, dona de casa, heroína do lar e referência de cuidado e segurança emocional para seus filhos, mulher incansável, dotada de um amor incondicional, vista pela sua subserviência e delicadeza em fazer tudo sozinha e se for sem reclamar, melhor. Do outro lado, o feminino temido, sensual, de batom vermelho, corpos exuberantes, vaidosa, cheirosa, cara, pronta para matar e destruir o homem e a outra mulher que está em casa, transeunte da rua, nunca feita para casar, seus filhos serão sempre bastardos, mas que pode levar um homem a loucura e destruir lares. Com qual dessas mulheres você se identificou?


Nos dias atuais é comum encontrar um pouco de cada uma dessas mulheres em uma mesma mulher, já que conquistamos novos espaços e mudamos uma série de concepções, mas a dificuldade que referi no diálogo inicial, está justamente no fato de compreender que ainda somos exigidas de forma específica sobre todos esses papéis. Nessa discussão, ainda cabe admitir que essa distinção entre os “tipos de mulheres”, “seus lugares” e reconhecimentos é interseccionado pelas questões de raça, classe e heteronormatividade. Quais as mulheres mães dos filhos bastardos? Qual a sua classe social? Qual a cor da sua pele? Surge aqui a discussão sobre as diferentes mulheres e diferentes lutas a serem travadas quando os corpos não são brancos, são pobres e não são mulheres biológicas. Imaginou como fica mais complexo esse diálogo?


Não é possível, hoje, conversar sobre feminismos somente. Admitir que somos diversas nos leva a ter que fazer o diálogo público sobre mulheridades e, assim, as mulheres negras fundam o mulherismo, maneira de interseccionar as pautas de raça mais especificamente, mas ao meu ver com a possibilidade de ampliar para tantas outras formas de ser mulher.


E finalmente, o que é ser mulher mesmo? Ser mulher na nossa sociedade ainda é ser resistência, atenta às subalternizações existentes e que se mostram de formas diversas, inclusive como violência e morte. É também ser a criadora e desbravadora de novos femininos, que rompam as ideologias postas na cultura machista e patriarcal. Mas sobretudo, e mais importante hoje, ser mulher é ser coletivo, sempre fomos mais que uma, sempre fomos uma família real ou em potencial e os novos tempos nos pedem que sejamos mulheres, com mulheres e por mulheres, pois somente a mulheridade é sensível ao reconhecimento das demandas de outra mulheridade.


De fato, não sabemos o que é ser mulher sem os traços culturais do patriarcado e do machismo e eis a nossa grande dificuldade nesse exercício, mas sabemos que nossas mais velhas nos trouxeram até aqui, algumas vezes morrendo, outras lutando, apanhando e as vezes somente vivendo o cotidiano dos inúmeros reflexos de toda a desigualdade de gênero. Resta a nós as honrarmos, continuando essa construção para as próximas que virão poderem viver cada vez mais distantes da opressão e, quem sabe um dia, perceberem tudo isso como fantasma de uma história longínqua, como mulheres livres, sem medo de falar, de transitar nas ruas, com direitos garantidos e justiça social.

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