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O paradoxo da tolerância e as ideias neonazistas no Brasil

Afinal, em um regime democrático, a liberdade tem que ser um valor absoluto?


Nos últimos anos, para espanto de muitos, tem sido mais comum manifestações de caráter neonazista no Brasil. Em outubro, uma suástica apareceu em protesto antivacina em Londrina (PR). Maior repercussão teve a fala do podcaster Monark, que defendeu, em fevereiro, a existência de um partido nazista no país, sob a justificativa de que essas pessoas tinham o “direito de serem idiotas”.


Embora a ideia tenha recebido muitas críticas, houve quem defendesse que, em um país democrático como o Brasil, não faria sentido tal proibição. A liberdade teria que ser um valor absoluto. Para essas pessoas, a parcela da população com ideias neonazistas é tão insignificante que não valeria a pena perder tempo em coibi-las. Mesmo considerando o fato de o nazismo defender ideais racistas e de eliminação de pessoas, e o Brasil ser um país no qual 54% da população é formada por afrodescendentes.


Na Alemanha, nos anos 1920, também havia quem acreditasse que os nazistas eram irrelevantes. Nas eleições de 1928, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, que agregava os nazistas, conseguiu apenas 2,6% dos votos. Em 1933, apenas cinco anos depois, Hitler ascendeu ao poder.


“Na Alemanha, hoje, qualquer tipo de manifestação nazista é tomada como crime. As pessoas são presas. Obviamente, na Alemanha isso é muito forte por ter sido o berço do nazismo”,

lembra o consultor Reinaldo Campos, especialista em design thinking e palestrante da Spotlight.


“Crimes contra a humanidade não podem ser tolerados. Têm que ser punidos por lei, têm que ser rejeitados de todas as maneiras. A humanidade penou muito para chegar onde estamos, tivemos séculos de escravidão, tivemos o Holocausto. Por isso, não posso permitir esses focos. É preciso haver leis punitivas e severas”,

defende Reinaldo.


Mas, se a liberdade é um valor absoluto das democracias ocidentais, por que proibir esse tipo de manifestação?



Manifestações neonazistas põem em xeque o paradoxo da tolerância nas democracias


Em seu livro “A sociedade aberta e seus inimigos”, o filósofo Karl Popper reflete sobre o tema apontando três paradoxos na sociedade: da liberdade, da democracia e da tolerância.


Popper estabelece que a liberdade absoluta pode levar a restrições da própria porque “torna os violentos livres para escravizarem os fracos”. Menos conhecidos são o paradoxo da democracia e o da tolerância. Para Popper, o governo da maioria, premissa dos regimes democráticos, pode decidir que um tirano governe, acabando com a democracia.


Já a tolerância absoluta também pode implodir a própria tolerância:


“Se estendermos a tolerância ilimitada até àqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra os ataques dos intolerantes, o resultado será a destruição dos tolerantes e, com eles, a tolerância.”

A princípio, Popper defende que não se deve suprimir as manifestações intolerantes enquanto se puder contrapor essas ideias com argumentos racionais e mantê-las controladas na sociedade. Seria o estágio em que está o Brasil no momento? Pela experiência da Alemanha pré-nazista, é muito difícil fazer essa avaliação. Para Popper, o Estado deve agir quando essa ameaça deixar de ser velada. É preciso reprimir os intolerantes, inclusive com uso da força.


Para Thiago Vinícius, empreendedor social no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, essas ideias reverberaram na sociedade brasileira a partir do momento em que a população se desiludiu com a política.


“Abriram o bueiro e esses ratos, baratas e larvas saíram do esgoto. É o cara que quebra a placa da Marielle [Franco]. Tudo isso saiu do nosso distanciamento da política. A gente trata a política com nenhuma prioridade. Quando o brasileiro se distanciou da política, encorajou essas pessoas a pregar o nazismo”,

analisa Thiago, que é palestrante da Spotlight.




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